"Vó, vem ver. Estão matando o Zoca de novo!". Chamada pelo neto de 4 anos, a cozinheira Regiane Neves da Silva Ferrari, 48 anos, correu para a frente da televisão e viu, mais uma vez, a imagem que queria esquecer: a cabo Kátia Sastre atirando contra o ladrão que, arma em punho, ameaçava mães e crianças que aguardavam pela comemoração do Dia das Mães na frente de uma escola particular em Suzano, na Grande São Paulo. "Eu não aguentei. Saí desesperada e a única coisa que eu pensava é que precisava tirar aquilo da televisão. Nenhuma mãe tem direito de fazer isso com outra mãe. Ele fez algo que não ensinei, mas não é fácil perder um filho. Vou amar ele para o resto da minha vida", diz Regiane com as lágrimas já ameaçando sair dos olhos mais uma vez.
O filho de Regiane, Elivelton Neves Moreira, o Zoca, tinha 20 anos. Cresceu na Vila Jau, em Poá, o terceiro entre os menores municípios paulistas. Estudou até a 8ª série. Aos 14 anos, tomou gosto por sair de casa e ficar com amigos na rua. Dona Regiane ia atrás dele, mas não dava conta. Desde que o marido morreu, quando Zoca tinha 3 anos, trabalha fora de casa para sustentar os cinco filhos, agora adultos – o caçula tem 18 anos, dois a menos do que o filho morto.
Aos 15, Zoca foi parar na Fundação Casa (a antiga Febem) depois de ser flagrado pelo mesmo crime que pretendia cometer naquele sábado de maio: roubo de carro. Ficou cerca de um ano por lá, saiu, mas não arrumou emprego. Vivia de bicos, entre eles entregas para um supermercado de Suzano, município vizinho a Poá.
Na sexta-feira anterior à morte, Regiane voltou do culto na igreja e Zoca já estava dormindo. No sábado, o filho continuava na cama quando ela saiu cedo para o trabalho. A notícia veio no começo da tarde. Ao chegar do trabalho, a filha disse que Zoca tinha sido atingido por três tiros e estava sendo operado. "Naquele momento eu desabei. Não tive força nem de ir ao hospital. Meu irmão e um sobrinho foram até lá, mas no caminho já ficaram sabendo que ele tinha morrido", conta.
Regiane diz que a partir daquele dia sua vida virou um tormento. Não bastasse o luto pela morte do filho, a cozinheira conta que carros da polícia passavam em frente à casa da família e os policiais diziam coisas para seus filhos. Zombavam da morte de Elivelton pela arma da PM Kátia Sastre. "Não aguentei ficar", diz Regiane, que foi com os filhos para a casa da mãe, na cidade vizinha de Ferraz de Vasconcelos.
Diagnosticada com depressão, passou a usar medicamento todos os dias. Com apoio dos amigos e dos donos do restaurante onde trabalha, voltou a tocar a vida. Foi quando o neto viu a imagem de Zoca na TV e a chamou. Regiane desmoronou. "Até com medo do fogão eu fiquei. Parecia que aquele fogo ia me engolir", diz a cozinheira, que foi orientada a procurar um advogado para tirar do ar as imagens que a PM Kátia Sastre passou a usar diariamente durante sua campanha a deputada federal.
Kátia, que disse ter orado pela família de Elivelton depois do acontecido, menos de um mês depois dos tiros se reuniu em Brasília com Valdemar Costa Neto, a pessoa que hoje manda de fato no PR, embora nem seja mais filiada ao partido. Como policiais não precisam se descompatibilizar do cargo com antecedência de seis meses para se candidatar, como ocorre com outros funcionários públicos, Kátia teve apenas de aguardar a convenção do partido para formalizar sua candidatura.
Nos bastidores, integrantes do PR dizem dizem que o partido esperava eleger a PM Kátia com mais de meio milhão de votos. Durante a campanha, ela chegou a ser homenageada pelo governador Márcio França (PSB) pela ação que resultou na morte de Elivelton – candidato ao governo do Estado, França tentava ali surfar na popularidade da PM.
A "Tiririca de farda", como a policial acabou sendo chamada na região de
Mogi das Cruzes durante a campanha, recebeu 264 mil votos. Foi a sétima
deputada federal mais votada do Estado de São Paulo.
O uso das imagens de Kátia atirando e matando Elivelton chegou a ser suspenso pelo juiz do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) Paulo Sergio Galizia, que considerou que a "mãe PM", como ela ficou conhecida, se autopromovia explorando uma cena de violência brutal e explícita, que culminou com uma morte, e, além de tudo, as imagens atingiam crianças e adolescentes de forma imprópria. Pouco depois, porém, por quatro votos a dois, o TRE-SP liberou a propaganda política da candidata, entendendo que o Judiciário não deve interferir de forma desmedida no processo eleitoral ou agir como xerife do processo.
No primeiro depoimento prestado após o crime, na delegacia de Suzano, Kátia afirmou que Elivelton atirou em direção a ela, que, por isso, revidou com dois tiros. Em seguida, como ele caiu ainda com a arma na mão, apontada em sua direção, fez o terceiro disparo. Nos documentos anexados ao processo, consta que a pistola 640 usada pela policial tinha 11 cartuchos, dos quais nove foram apreendidos. A conta está errada. Com três disparos, deveriam restar oito.
O uso das imagens de Kátia atirando e matando Elivelton chegou a ser suspenso pelo juiz do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) Paulo Sergio Galizia, que considerou que a "mãe PM", como ela ficou conhecida, se autopromovia explorando uma cena de violência brutal e explícita, que culminou com uma morte, e, além de tudo, as imagens atingiam crianças e adolescentes de forma imprópria. Pouco depois, porém, por quatro votos a dois, o TRE-SP liberou a propaganda política da candidata, entendendo que o Judiciário não deve interferir de forma desmedida no processo eleitoral ou agir como xerife do processo.
No primeiro depoimento prestado após o crime, na delegacia de Suzano, Kátia afirmou que Elivelton atirou em direção a ela, que, por isso, revidou com dois tiros. Em seguida, como ele caiu ainda com a arma na mão, apontada em sua direção, fez o terceiro disparo. Nos documentos anexados ao processo, consta que a pistola 640 usada pela policial tinha 11 cartuchos, dos quais nove foram apreendidos. A conta está errada. Com três disparos, deveriam restar oito.
O promotor Felipe José Zamponi Santiago pediu que seja arquivado inquérito aberto envolvendo a policial. Atestou que ela não extrapolou os limites do cumprimento de seu dever legal, de proteger a vida, a integridade física e o patrimônio próprio e das pessoas que estavam na porta da escola, agindo em legítima defesa.
Santiago não entra em detalhes sobre como a história foi inicialmente contada. A ÉPOCA, informou apenas que, para fazer a denúncia, usou como base a informação de que Elivelton tentou efetuar disparo, que consta no inquérito policial.
A investigação segue em relação a um terceiro envolvido, Kelvelliny
Lima, 24 anos, que levou Elivelton até Suzano. Preso preventivamente,
ele alega que apenas deu carona ao amigo de infância, sem saber o que o
que Zoca pretendia fazer no local. O carro que ele dirigia é visto
passando em frente ao colégio pouco antes de Elivelton chegar com a arma
em punho e começar a revistar o porteiro da escola. Em depoimento, a
mulher de Kelvelliny chegou a dizer que o marido levava R$ 1.500 por
semana para casa, fruto do roubo de automóveis.
Regiane, a mãe de Elivelton, entrou com ação por dano moral pelo sofrimento que ela diz ter sido vítima diante da divulgação constante, durante o horário eleitoral, das imagens do filho sendo alvejado e morto. O valor pedido de indenização é de 500 salários mínimos, o que equivale a R$ 477 mil. "Ela queria apenas que a dor da família e a imagem da morte do filho fossem preservadas. Ela viu o filho morrer várias vezes, quase todos os dias, durante a campanha eleitoral. Ninguém censura a atitude da policial, mas a conduta do partido e dela durante a campanha. O direito da policial agir terminou ali, na porta da escola", afirma o advogado José Beraldo, dono do escritório de advocacia que representa Regiane.
Regiane, a mãe de Elivelton, entrou com ação por dano moral pelo sofrimento que ela diz ter sido vítima diante da divulgação constante, durante o horário eleitoral, das imagens do filho sendo alvejado e morto. O valor pedido de indenização é de 500 salários mínimos, o que equivale a R$ 477 mil. "Ela queria apenas que a dor da família e a imagem da morte do filho fossem preservadas. Ela viu o filho morrer várias vezes, quase todos os dias, durante a campanha eleitoral. Ninguém censura a atitude da policial, mas a conduta do partido e dela durante a campanha. O direito da policial agir terminou ali, na porta da escola", afirma o advogado José Beraldo, dono do escritório de advocacia que representa Regiane.
Na ação, Beraldo e sua sócia, a advogada Victória Monteiro, argumentam que Elivelton pagou pelo crime com a morte, mas que a mãe dele não pode pagar com tormento e sofrimento pelo roubo que o filho tentou cometer. Além da dignidade da pessoa humana, Beraldo lembra que o artigo 20 do Código Civil protege a imagem de mortos, que não deve ser exposta sem autorização.
O advogado Ricardo Vita Porto, que representa a deputada eleita, afirma que o TRE já considerou lícito o uso das imagens, que o fato aconteceu e pode ser explorado. "Ela foi uma heroína", diz Porto, que acompanhou a situação no âmbito eleitoral e conduzirá a defesa também na denúncia por danos morais.
Na avaliação de Porto, a ação movida pela mãe de Elivelton não terá êxito, pois a Justiça Eleitoral deu seu aval ao uso da simagens. A assessoria de Kátia não forneceu informações sobre o processo na área criminal e não comentou sobre a primeira versão dada pela policial ao episódio, antes que as imagens gravadas pela câmera de segurança da escola fossem entregues à polícia.


