Na disputa de forças, a corda arrebentou para o lado de Guaidó
0Alaelton Santosmaio 04, 2019
O último dia de abril começou em Caracas com um clima que analistas
classificaram de “cenário paraguaio”. No entanto, terminou em ritmo de
“cenário turco”. O primeiro termo era uma alusão à queda do ditador do
Paraguai Alfredo Stroessner em 1989, quando foi derrubado por seus
antigos aliados militares e enviado imediatamente ao exílio, onde morreu
sem ter tido autorização para voltar ao país e com sua influência
política anulada. A partir desse momento, o Paraguai iniciou uma fase de
democracia. O segundo termo era uma referência ao presidente turco
Recep Tayip Erdogan, que, em 2017, desativou uma tentativa de golpe
militar que lhe serviu de desculpa para implementar um amplo expurgo nas
Forças Armadas e no sistema judiciário da Turquia e aprofundar um
personalista regime autoritário.
O dia do levante começou com Juan Guaidó — o líder do parlamento
venezuelano autoproclamando presidente da República — na base aérea de
La Carlota, em Caracas, anunciando que setores militares haviam aderido a
sua mobilização para remover Nicolás Maduro do poder. A presença de
Guaidó causou surpresa. A mobilização popular estava programada para o
dia seguinte, o 1º de maio. A outra surpresa foi que Guaidó estava
rodeado de um grupo de militares armados, ostentando uma faixa
azul-escura no braço direito, como identificação dos rebeldes.
Simultaneamente, de Caracas a Washington, de Lima a Brasília, circulavam
rumores que indicavam que Maduro, “com um grupo de generais, parentes e
ministros”, estava rumo a Havana, em Cuba, a bordo de um avião russo.
Isto é, como se o líder chavista — supostamente assustado — tivesse
decidido fugir do país.
No entanto, naquele grupo fardado não havia nenhuma liderança militar de
peso. Eram capitães, majores e um coronel. Além disso, Guaidó não
estava no interior da base de La Carlota. Estava do lado de fora, já que
os militares dentro da base continuavam fiéis a Maduro e não haviam
aberto os portões ao líder opositor.
O único trunfo do presidente do parlamento era a figura de Leopoldo
López, líder do partido de Guaidó, o Vontade Popular. López, uma figura
várias vezes cotada para ser candidato presidencial, estava preso desde
2014 (nos primeiros anos em uma penitenciária e nos últimos tempos em
prisão domiciliar). Naquela madrugada havia sido solto por integrantes
do Sebin, o temido serviço de inteligência de Maduro.
Esse foi o ponto culminante, o apogeu dessa breve rebelião. A partir
dali o movimento começou a ir a pique. Os ministros que supostamente
haviam ido embora do país começaram a aparecer em Caracas, para espanto
de Guaidó. Enquanto isso, ele observava, de cima do imenso viaduto na
frente de La Carlota, a ampla Avenida Francisco Fajardo para ver se
havia tropas desertoras a caminho. Mas ninguém apareceu.
Vários opositores começaram a recordar que a Venezuela, ao contrário de
outros países da América do Sul, possui um histórico de golpes militares
fracassados.
Civis que apoiavam Guaidó entraram em choque com as forças policiais,
militares e paramilitares de Maduro. Os civis, com o rosto semicoberto
por lenços, arremessavam pedras contra as “baleias” (os blindados
brancos que disparam jatos de água) e os “rinocerontes” (os veículos que
lançam granadas de gás lacrimogênio). Em vez de uma tentativa de golpe
militar, o cenário parecia uma versão caribenha de uma intifada.
Nas horas seguintes, Leopoldo López teve de se refugiar na embaixada do
Chile e, na sequência, foi para a embaixada da Espanha. O punhado de
militares rebelados foi detido pelas forças de Maduro. O chefe do Sebin,
o general de divisão Manuel Figuera, acusado pelo chavismo de ter
liberado López, terminou preso.
Em fevereiro, Guaidó havia protagonizado seu primeiro fracasso, quando
prometeu aos Estados Unidos que conseguiria entrar com os caminhões
carregados de ajuda humanitária para a Venezuela, argumentando que os
militares se colocariam a seu lado e permitiriam a entrada dos
suprimentos. Ledo engano.
Desde a semana passada, Guaidó estava preparando os detalhes da
manifestação que pretendia realizar em 1º de maio. Essa jornada, segundo
os planos iniciais, teria dois lados. Um, o civil, com vastos setores
da população nas ruas. O outro seria o militar, pois Guaidó estava
convencendo altos comandantes a abandonar Maduro e passar para seu lado.
Nesse ínterim surgiram intensos rumores de que o regime chavista estava
preparando uma cela especial no Helicoide, a sede do Sebin, para
colocar Guaidó. Na segunda-feira 29 de abril, o líder da oposição teria
recebido a informação de que sua detenção ocorreria antes do dia da
manifestação opositora. Nesse momento, decidiu adiantar os
acontecimentos. Vários comandantes militares, pegos de surpresa pela
mudança de planos, vacilaram. E, duvidando do eventual sucesso da
rebelião, pularam fora.
Os dois fracassos acumulados por Guaidó o fazem perder pontos perante os
Estados Unidos e os governos latino-americanos que lhe haviam declarado
respaldo nos últimos quatro meses. Derrota de Guaidó e vitória de
Maduro? Não. Maduro também foi perdedor, por outros motivos. Um deles é
que, embora o líder opositor tenha fracassado, Maduro não o colocou na
cadeia, porque uma eventual prisão de Guaidó geraria uma onda
internacional de sanções em grande escala contra Maduro. Outro ponto
negativo para o autocrata caribenho é interno, pois no dia da tentativa
de levante de Guaidó o principal protagonista do governo não foi Maduro,
mas sim seu rival dentro do chavismo, Diosdado Cabello, presidente da
Assembleia Nacional Constituinte, o segundo homem forte do país.
Cabello recuperou poder dentro do governo. Um dos sinais é que o novo
diretor do Sebin é um homem de confiança de Cabello, o general González
López, que volta ao cargo. Dessa forma, a Venezuela torna-se o cenário
de duas disputas. Uma, da oposição contra o regime. A outra, de dois
setores internos do chavismo.