O presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, criticou a mobilização do governo do presidente Jair Bolsonaro
em defesa do excludente de ilicitude, que contempla a possibilidade de
isentar de punição produtores rurais que atirarem contra invasores de
terras. Ao Estadão/Broadcast e à Rádio Eldorado, Santa Cruz
disse vislumbrar uma espécie de “Velho Oeste” no Brasil, onde a
população armada substituiria políticas de segurança pública. A seguir
os principais trechos da entrevista:
Diante da decisão do governo de avançar no excludente de ilicitude, o que se pode esperar como desdobramento?
Não
consigo ter como ideal de Justiça uma espécie de Velho Oeste, onde
todos vão andar armados na sala de aula, na rua. Claro que entendo que
em algumas situações, como no campo, isolado, o porte de arma é
necessário. Agora, acho esta uma bandeira que não é civilizatória. Dizer
que a polícia brasileira precisa de uma autorização para matar ainda
mais? Uma polícia que já é uma das que mais matam no mundo? E das que
mais morrem? Acho que as saídas para esta crise são mais complexas que
pôr arma na mão de cada cidadão.
Como o sr. avalia o pacote anticrime do ministro Sérgio Moro?
Tem
pontos positivos, como o banco de dados genético, a criminalização do
caixa 2. Mas tem coisas que são mais do mesmo. É mais encarceramento,
num sistema que tem 200% de superlotação e onde presos são mão de obra
para organizações que têm seus líderes presos. Acho que precisamos de
mais do que as medidas do ministro.
A OAB entrou com pedido que adiou o julgamento da prisão em segunda instância no Supremo Tribunal Federal. O que motivou isso?
Sou
parte, né? E parte da sabedoria de conduzir um processo é saber o
momento ideal de ele ser julgado. Se sou um bom advogado, vamos
descobrir em alguns meses (risos).
Mas o STF
decidiu numa direção e, agora, poucos meses depois, pode rever o
entendimento. Não temos insegurança jurídica demais nesse tema?
Não
só nesse, em vários. É um país onde as regras mudam ao sabor do vento.
Mas a OAB entende que o texto constitucional fala em prisão após o
trânsito em julgado. Este é o texto da lei. Que se desafie uma PEC, se
for possível. Mas o texto da lei é de uma clareza solar.
O sr. é a favor de dar mais poder a órgãos de controle no combate à corrupção? Por exemplo, o Coaf deve permanecer no Ministério da Justiça?
Não sou especialista, mas em todos os lugares do mundo o Coaf é um órgão acessório da Economia e da Receita Federal.
O que não se pode é criar uma supersecretaria de supervisão da vida
privada onde as regras não funcionem de maneira transparente.
O sr. é a favor de uma quarentena no Judiciário?
Sim,
acho que temos que ter um bom tempo. Defendemos que a quarentena do
juiz não é só dele. Se ele ingressa numa sociedade, por exemplo, a
quarentena deveria ser do escritório todo.
O ministro Sérgio Moro deveria ter uma quarentena se for para o Supremo Tribunal Federal?
Eu
entendo que sim, mas aí por outra razão que eu não considero boa
institucionalmente. O processo de seleção de ministro do Supremo acaba
sendo um processo de seleção dos amigos do presidente. É um processo de
escolha que precisa ser aprimorado.
Houve exagero do STF no inquérito que apura fake news?
Acho
o episódio das fake news gravíssimo. Existe uma milícia virtual contra
qualquer um que tente trazer questões mais complexas para o debate
político. Você logo é tachado de comunista. Agora, o que ocorreu – e a
Ordem tem posição pública sobre isso – é o erro de isso tudo ser
confundido com a questão da liberdade de imprensa.
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‘Não consigo ter como ideal de Justiça uma espécie de Velho Oeste’, diz presidente da OAB
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maio 03, 2019


