Militar preso com cocaína já fez outras viagens no escalão avançado da Presidência da República
0Alaelton Santosjunho 26, 2019
RIO — O segundo-sargento da Aeronáutica Manoel Silva Rodrigues é o
militar que foi preso na manhã de terça-feira pela polícia espanhola, no
aeroporto de Sevilha, suspeito de tráfico de drogas. Ele era tripulante
do voo que transportava a equipe avançada de transporte que dava apoio à
comitiva do presidente Jair Bolsonaro. Ele foi flagrado com 39 quilos
de cocaína divididos em 37 pacotes em sua mala, disse à AFP uma
porta-voz da força policial sevilhana. O GLOBO confirmou com fontes do
governo brasileiro que ele deixou o país ontem.
O salário dele bruto é de R$ 7.298,10 e está lotado no Comando da
Aeronáutica. Em março, ele também fez uma viagem como comissário do
escalão avançado da presidência da República. No dia 29 de março, ele
saiu com a equipe de Brasília rumo a São Paulo e fez ainda fez uma
escala em Vitória, no Espírito Santo, antes de retornar a Brasília. O
sargento também viajou com Bolsonaro em fevereiro quando o presidente
esteve na capital paulista para exames. A viagem ocorreu em 27 de
fevereiro.
Integrante do Grupo de Transporte Especial (GTE), baseado em Brasília,
ele esteve ainda em outras viagens internacionais com integrantes do
governo. Em setembro de 2011, o suboficial cumpriu missão de dois dias
em Praia, Cabo Verde, em apoio à Presidência da República. Em maio do
mesmo ano, o militar estava na missão de apoio ao ministro de das
Relações Exteriores na viagem de um dia a Assunção no Paraguai. No mesmo
mês, ele fez uma viagem de cinco dias a Buenos Aires, na Argentina,
para apoiar a ida do ministro da Defesa. Em novembro, ele voltou à
capital argentina em uma viagem de dois dias. Antes, no entanto, ele fez
uma viagem de dois dias a Montevidéu, no Uruguai, quando, em agosto,
acompanhou o ministro das Cidades.
Em março de 2012, ele foi designado
para uma viagem de seis dias a Santiago, no Chile, também em apoio ao
Comandante da Aeronáutica.
No Portal da Transparência, são relacionadas 28 viagens nacionais de
Silva Rodrigues a destinos como Recife, Rio, São Paulo, Maceió, etc. É
possível verificar que o militar já recebeu R$ 17.292,14 em diárias de
viagens nacionais entre 2014 e 2019. Em 11 ocasiões, entre 2017 e este
ano, a unidade orçamentária pagadora é a Presidência da República.
Procurada, a Força Aérea Brasileira (FAB) ainda não se manifestou.
Ontem, sem divulgar o nome do militar, a FAB informou que os fatos
estavam sendo apurados e que foi determinada a instauração do Inquérito
Policial Militar (IPM). Pelo Código Penal Militar (CPM), a condenação
por tráfico de drogas tem pena de reclusão de até cinco anos.
"O Comando da Aeronáutica reitera que repudia condutas dessa natureza,
reforça o compromisso com o rigor das investigações e ressalta que dará
prioridade na apuração e elucidação do caso, bem como colabora com as
autoridades", dizia a nota publicada ontem.
Nesta quarta-feira, em nova nota, a FAB afirma que o sargento exerce a
função de comissário de bordo em uma aeronave militar VC-2 Embraer 190.
"Esclarecemos que o sargento partiu do Brasil em missão de apoio à
viagem presidencial, fazendo parte apenas da tripulação que ficaria em
Sevilha. Assim, o militar em questão não integraria, em nenhum momento, a
tripulação da aeronave presidencial, uma vez que o retorno da aeronave
que transporta o Presidente da República não passará por Sevilha, mas
por Seattle, Estados Unidos".
A FAB disse ainda que as "medidas de prevenção a esse tipo de ilícito
são adotadas regularmente. Em vista do ocorrido, essas medidas serão
reforçadas".
A comitiva de apoio à equipe presidencial fez escala em Sevilha antes de
seguir para o Japão, onde o chefe do Planalto participará da cúpula de
líderes do G20. O avião presidencial faria escala na mesma cidade
espanhola antes de seguir para o Japão, mas, após a prisão do militar,
seguiu para Portugal.
Apresentado em um tribunal nesta quarta-feira, Silva Rodrigues foi
colocado em detenção provisória. Na noite desta terça-feira, Bolsonaro
disse, nas redes sociais, que determinou que o Ministério da Defesa
colabore com as investigações da Polícia da Espanha.